quinta-feira, 20 de outubro de 2011
TRABALHAR CANSA
sexta-feira, 22 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
X-MEN - PRIMEIRA CLASSE

Observações rápidas sobre “X-Men – Primeira Classe”:
· É um filme infinitamente melhor do que “Wolverine”, a última cria da série, mas não e compara aos episódios dirigidos por Bryan Singer.
· Ainda assim, o diretor Matthew Vaughn faz muito pelo filme, e sua aptidão para misè-en-scène fica bastante clara em cenas como a do primeiro encontro do jovem Erik/Magneto e Sebastian Shaw. Já nas sequências de ação, o trabalho parece ser mais burocrático.
· O roteiro me pareceu bastante perneta: joga ações e não nos apresenta as devidas reações, e vice-versa. O caso mais claro que me vem à mente é a debandada de Angel para o lado de Shaw (que quer destruir a raça humana): okay, há a voz off do guarda que tenta entregar os mutantes, mas isso não é o suficiente para a mudança da personagem. Aliás, o primeiro filme trabalhava melhor com a apresentação e o desenvolvimento dos secundários: o sumário narrativo em que eles surgem é ruim, e com exceção de Mística e Fera, são geralmente figuras bem rasas.
· O elenco principal é um achado: Michael Fassbender dá continuidade à ambiguidade que Ian Mckellen empregava a Magneto, Bacon faz um vilão realmente ameaçador e Jennifer Lawrence dá mais camadas à Mística, que assume o “posto” que era de Vampira (Anna Paquin) no original. Rose Byrne (da série “Damages” e do recente “Sobrenatural”), além de ótima, tem acumulado bons trabalhos no cinema (e espero que ela continue aparecendo de lingerie) e James McAvoy faz do Professor Xavier um personagem de extrema complexidade: é interessante notar como a jovialidade e a energia do personagem vão se esvaindo no decorrer do filme. A relação com Mística é um dado à parte: apesar de generoso e preocupado com a “irmã” (na cena em que a aeronave é atingida tem a ação quase automática de protegê-la com a mão), ele não consegue dar-lhe o conforto que a garota procura, algo que virá com Erik. Aliás, boa parte da força do filme está no envolvimento desses três personagens.
· A direção de arte, não só faz um belo trabalho de reconstituição de época, como desenha ambientes luxuosos (os bastidores do poder durante a Guerra Fria), mas também austéros e áridos. Diria que impressiona mais do que os efeitos especiais, que geralmente são atração maior neste tipo de filme.
por Álvaro André Zeini Cruz
quarta-feira, 6 de julho de 2011
PÂNICO 4

quarta-feira, 1 de junho de 2011
1. Ônibus 174, de José Padilha e Felipe Lacerda ****
2. Tron, de Joseph Kosinski ***
3. Se beber, não case, de Todd Phillips ****
4. Além da vida, de Clint Eastwood *****
5. Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock *****
6. Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder *****
7. Desejo e Obsessão, de Claire Denis ****
8. Avatar, de James Cameron *****
9. O Mágico, de Sylvain Chomet **
10. É Proibido Fumar, de Ana Muyarlet ***
11. Enrolados, de Byron Howard e Nathan Greno ****
12. Mary Poppins, de Robert Stevenson ***
13. Filme Socialismo, de Jean Luc Godard ***
14. Era uma vez no Oeste, de Sérgio Leone *****
15. Ponyo - uma amizade que veio do mar, de Hayao Miyazaki *****
16. Cisne Negro, de Darren Aronofsky ****
17. Sempre Bela, de Manoel de Oliveira ****
18. Tio Boonme, de Apichatpong Weerasethakul ****
19. Alice não mora mais aqui, de Martin Scorsese ***
20. Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai ***
22. Deixe-me entrar, de Matt Reeves *
23. O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto ***
24. Um lugar qualquer, de Sophia Coppola ****
25. A Outra, de Woody Allen ***
26. Eles vivem, de John Carpenter *****
27. Conto de Verão, de Eric Rohmer *****
28. Conto de Inverno, de Eric Rohmer ***
29. Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky **
30. Os embalos de sábado à noite, de John Badham ***
31. Inverno da Alma, de Debra Granik ****
32. O Raio Verde, de Eric Rohmer ****
33. O Segredo dos seus Olhos, de Juan José Campenella ****
34. Cidade dos Amaldiçoados, de John Carpenter ****
35. Garota da Vitrine, de Anand Tucker ****
36. Frenesi, de Alfred Hitchcock *****
37. Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock ***
38. 127 horas, de Danny Boyle **
39. Homem-Aranha 2, de Sam Raimi *****
40. O Discurso do Rei, de Tom Rooper ***
41. Alice nas cidades, de Wim Wenders ****
42. Jejum do Amor, de Howard Hawks *****
43. 33, de Kiko Goifman ***
44. A Noite dos Mortos Vivos, de Tom Savini ****
45. Conto de Primavera, de Eric Rohmer ****
46. Bravura Indômita, de Joel e Ethan Cohen ****
47. Os Caça-Fantasmas, de Ivan Reitman ***
48. Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho ***
49. Natimorto, de Paulo Machline ****
50. Namorados para sempre, de Derek Cianfrance ****
51. Titicut Follies, de Frederick Wiseman ***
52. Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de Steven Spielberg ****
53. Cópia Fiel, de Abbas Kierostami *****
54. Mistérios e Paixões, de David Cronenberg ***
55. Santiago, de João Moreira Salles ****
56. A eternidade e um dia, de Theo Angelopoulos ****
57. Onde começa o inferno, de Howard Hawks *****
58. Esposa de Mentirinha, de Dennis Dugan ***
59. Alta Ansiedade, de Mel Brooks ****
60. Farrapo Humano, de Billy Wilder ****
61. A Fortaleza, de Arch Nicholson *****
62. Pequenos Guerreiros, de Joe Dante *****
63. Viagem Insólita, de Joe Dante ****
64. Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood *****
65. Lolita, de Stanley Kubrick *****
66. A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz *****
67. Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi ****
68. Pauline na praia, de Eric Rohmer *****
69. Assassinos, de Don Siegel ****
70. O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog ***
71. Touro Indomável, de Martin Scorsese *****
72. Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini **
73. Amantes Crucificados, de Kenji Mizoguchi ***
74. Rio, de Carlos Saldanha **
75. Thor, de Kenneth Branagh *
76. Justiça, de Maria Augusta Ramos ****
77. Pânico 4, de Wes Craven ****
78. Tarnation, de Jonathan Caouette *****
79. Paisagem na Neblina, de Theo Angelopoulos *****
80. Marcha da vida, de Jessica Sanders ****
81. As Pontes de Madison, de Clint Eastwood ****
82. O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi ****
83. Cova Rasa, de Danny Boyle ***
84. Sobrenatural, de James Wan ****
85. Millennium Mambo, de Hou Hsiao-Hsien ***
86. O fim e o princípio, de Eduardo Coutinho *****
87. O passo suspenso da cegonha, de Theo Angelopoulos ****
88. Piratas do Caribe 4, de Rob Marshall **
89. Viagem do Balão Vermelho, de Hou Hsiao-Hsien ****
90. O Joelho de Claire, de Éric Rohmer *****

terça-feira, 24 de maio de 2011
"BRUNA SURFISTINHA" E "FALSA LOURA": CINDERELAS DO BRASIL

Em “Falsa Loura”, Carlos Reichenbach conta a história de Silmara, operária da periferia paulistana, cuja alta autoestima é uma qualidade aparente. Interpretada por Rosanne Mulholland, ela é uma das poucas figuras femininas hipnóticas do cinema nacional recente: esbanja sensualidade, simpatia e certa esperteza suburbana, enquanto guarda em segredo a ingenuidade de quem espera encontrar seu príncipe encantado, algo que jamais se concretiza. Isso porque Reichenbach subverte o conto de fadas: em seu âmago, Silmara está certa de que é Cinderela; o filme, no entanto, se constrói para comprovar a vocação da moça para gata borralheira. É, justamente, o oposto do que se vê em “Bruna Surfistinha”.
Raquel Pacheco (ou Bruna) e Silmara, no entanto, começam em pontos equivalentes – a primeira é filha adotiva de um casal de classe média-alta; a outra, uma moradora da periferia, mas ambas vêm de um ambiente que, de alguma forma, lhes foi/é hostil. Os sentimentos turbulentos em torno da figura paterna – o pai de Bruna é de uma indiferença inexplicável; o de Silmara um ex-incendiário alcoólatra – também tornam-se um ponto de convergência entre elas. Por fim, ambas conhecem o poder de sedução que têm para com os homens, embora o usem de formas distintas, e por isso, as trajetórias até aqui semelhantes, passam aqui a se distinguir.
Pois Silmara esconde a mais arquetípica mocinha em busca do verdadeiro amor: o príncipe encantado que em “Falsa Loura” traduz-se no vocalista da banda ou no galã de televisão. Bruna não acredita em príncipes, ela inclusive afirma isso a certa altura. Talvez porque a projeção que mais se aproxime dessa ideia de figura salvadora, esteja no pai, líder de um núcleo familiar que a acolheu de maneira física e material, mas não emocional (exceção da mãe). De qualquer forma, o filme lança isso tudo de forma bastante superficial, embora bem amarrada pelo roteiro. Adentramos um cotidiano familiar perceptivelmente incômodo, mas cujas razões somos incapazes de compreender (embora a voz over tente a todo custo explicar).
Do apartamento de classe média pouco acolhedor, vamos ao prostíbulo no coração da cidade – da qual pouco se vê. É o momento tônico de “Bruna Surfistinha”, pois pela primeira vez há a retratação de um cotidiano mais frouxo, natural, ainda que habitado por estereótipos (Drica Moraes faz o possível e impossível para humanizar a cafetina clichê, e o resultado acaba por ser positivo). Há um mínimo de inter-relação entre as personagens e os problemas por elas enfrentados, além de certa espacialização das internas, o que nos leva a alguma mise èn scène além dos quadros fechados, que voltam com força lá pelo desfecho do segundo ato, quando a “recuperação” da personagem enche de pudor o sexo/corpo, limitando Bruna à relação com o blog/computador. Tem-se aí uma questão problemática: num filme que trata do corpo como uma potencial ferramenta para o dinheiro/sucesso, é o rosto que ganha destaque, numa encenação típica do cinema da Globo Filmes (que têm raiz, caule, folhas e frutos calcados na teledramaturgia). O corpo têm alguma importância no início, algo que se estende até o momento do prostíbulo, para logo depois perder espaço em definitivo, com um estrangulamento da mise èn scène na redenção da personagem. Os closes aliados a uma voz over, que já não faz cerimônia na hora de colocar as asserções que bem entender em primeira pessoa, são responsáveis pela moralização de uma personagem que era muito mais complexa ao afirmar que só deixaria a prostituição quando não a desejassem mais. Quando o vício se torna uma força motriz, a personagem se planifica e, de certa forma, Bruna Surfistinha se sacrifica em prol de Raquel Pacheco, pois estamos próximos do desfecho.
Essa fixação que o filme nutre pela própria protagonista torna-se estimulante a princípio, mas limitadora em vários sentidos. O temor por um não restabelecimento de Bruna perante o público faz com que o sexo, e consequentemente tópicos como sexualidade e sensualidade, sejam tratados com excessiva precaução, numa trama em que deveriam estar intrínsecos à personagem, ao protagonismo. O sexo, no entanto, chega a ser desimportante a ponto de elaborar-se em sumários narrativos. Assim, pode-se dizer que Surfistinha personifica, mas também sufoca, seu tema e universo, algo que se reflete de forma visível na encenação e na devoção que o filme tem para protegê-la, não contra um universo diegético, mas contra nós, espectadores.
Esse “bom-mocismo”, no entanto, por mais inibidor que seja, é ao menos mais honesto do que a característica que atinge parte da produção nacional dos últimos anos (“Linha de Passe”, “As Melhores Coisas do Mundo”), e que o crítico Luiz Carlos Oliveira Jr. descreveu como “publicidade bem intencionada” e “concha segura do olhar”. Há aqui um posicionamento muito claro que estabelece vínculos com a personagem e consequentemente com o mundo que ela habita, mas sobretudo, há uma “falta de covardia” (dizer coragem seria exagero) na tomada dessa postura que pode ser quadrada, mas ao menos não é omissa, e isso já é um pequeno passo.
Entre as atuações, é preciso destacar o trabalho de Débora Secco, que de certa forma tonifica a sensualidade de Bruna Surfistinha – através de um imaginário ligado à própria figura da atriz e suas personagens anteriores – bem como confere certa fragilidade à moça (a postura acuada na cena em que ela vai à casa do colega mal intencionado); e Cássio Gabus Mendes, que como um cliente apaixonado, consegue estabelecer a tridimensionalidade do personagem através de um jogo de motivações ambíguas, que se desdobram da ternura quase pueril até o desejo sexual impulsivo e incontrolável, numa única cena.
Vale pensar, por fim, em várias das externas de Bruna pela cidade: o quadro fechadíssimo no rosto, as luzes quase sempre em desfoque ao fundo. Sínteses daquilo que se vê no filme: uma personagem capaz de atrair para si todos os olhares, permitindo que muito pouco, além dela própria, seja observado. Pois atrás da face próxima à câmera, um mundo veloz, com pouca profundidade, e que cujas imagens são difíceis de discernir – algo que pode ser sintomático à trajetória de sucesso e fracasso de Raquel Pacheco e seu blog, muito típica ao nosso tempo, aliás – se faz presente, impedindo o filme de avançar ao afetar cada microestrutura da narrativa, que parece se deslumbrar com Bruna a ponto apenas de protegê-la e emoldurá-la. Em “Falsa Loura”, o mundo dá rasteiras recorrentes em Silmara, a moça que pensa ser “princesa”, levando-a sempre de volta à estaca zero. Reichenbach pega a estrutura de uma história conhecida e a põe às avessas. Em “Bruna Surfistinha”, a personagem-título adentra na realidade da prostituição consciente de que não existem contos de fadas, mas o filme insiste em continuar a sê-lo. A “princesa” aqui busca o mundo-cão como um fim, mas o filme o assimila como um meio, como simples caminho das pedras que guia à mudança necessária, cuja ausência é inconcebível, já que tudo se encadeia para isso. Diferente de Silmara, personagem que provocava, mas também se deixava influenciar por um todo, Surfistinha têm um filme aos seus pés, pronto para resgatá-la do papel de gata borralheira e alçá-la ao posto de Cinderela.
por ÁLVARO ANDRÉ ZEINI CRUZ
quarta-feira, 30 de março de 2011
ALÉM DA VIDA


terça-feira, 22 de março de 2011
NATIMORTO

Em “Natimorto”, o universo de Lourenço Mutarelli, que também baseou “O cheiro do ralo”, mantém-se pulsante: relações incomuns, figuras estranhas, ambientes desagradáveis. Aqui, no entanto, a direção é de Paulo Machline, que baseia a interpretação dos atores num anti-naturalismo que se faz presente num mundo comum/inicial, mas que desaparece ao passo que, ironicamente, a relação entre a dupla – vivida por Simone Spoladore e pelo próprio Mutarelli – se torna mais e mais bizarra, revezando sentimentos como dependência e repulsa. Essa alternância, por sinal, está presente no campo imagético, seja pela alteração quase didática, e em momentos, sistemática, das cores que invadem o cenário (o verde e o vermelho dos luminosos; o verde gélido do quadro, que por diversas vezes “sufoca” a personagem de Spoladore – única cujo figurino e a maquiagem possibilitam o uso de cores quentes), seja pelo curioso trabalho de câmera, que capta um todo, para depois fragmentá-lo em detalhes. Pois são justamente os closes, a proximidade, a capacidade de atração dessas personagens, que “desorientam” por vezes a câmera, fazendo com que ela se perca pelo cenário (a boca de Spoladore nos “joga” para o carpete, por exemplo). Não é à toa que, quando a aproximação deixa de ser segura, a câmera se afasta, colocando-se a pino (olhando para as personagens como se fossem ratos de laboratório) ou priorizando planos gerais. Trata-se de um trabalho interessante, justamente por essa mise en scène da loucura, que mesmo num espaço reduzido, abre-se num leque de possibilidades. Pra fechar, me remeteu – ainda que com ressalvas – ao excepcional filme de William Friedkin: o subestimado “Possuídos”.
domingo, 13 de março de 2011

Eles vivem, de John Carpenter – o homem consciente X o que prefere se manter na ignorância. A alienação toma forma/força inesperada e extrema na violenta cena de luta deste belo filme de Carpenter.
Carpenter em cotações:
O Enigma de outro mundo (5/5)
Eles vivem (5/5)
Cidade do amaldiçoados (4/5)
A Bruma assassina (3/5)
Fuga de Nova York (3/5)
“Halloween” e “Christine – o carro assassino” foram vistos na infância e, como a memória não ajudou, preferi deixá-los de fora.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
127 HORAS


Em ambos os filmes, rapazes entre os vinte e poucos repelem o mundo social em prol da natureza – e quanto mais inóspita, melhor! No entanto, há algo simples que distancia a obra de Penn da de Boyle: em Na Natureza Selvagem, Christopher McCandless (Emile Hirsch) se exila devido a ressentimentos e à falta de compreenção que sente por aquela redoma do americano médio, iniciando um caminho de desligamento gradual que vai em direção crescente através dos encontros do protagonista com os Guardiões do Limiar (personagens que impedem momentaneamente a continuidade da jornada do herói). Tratam-se, no entanto, de Guardiões às avessas, que bloqueiam a passagem sem um intuito prejudicial; pelo contrário, são figuras representativas das relações afetivas do passado e daquilo que se pode estar perdendo.
Em 127 Horas, Aaron Ralston (James Franco) parece se isolar por pura indiferença, apatia, mas não há exatamente uma crise, apenas a busca de um cara, cujo ego é um tanto quanto inflado, por um pouco de adrenalina/movimento. Ele se isola do mundo, e é assim que o conhecemos na sequência de abertura: solitário em seu apartamento, numa imagem segmentada, pois a tela dividida em duas, três partes, coloca simultâneamente multidões díspares ao lado da imagem do protagonista.
Aparentemente, trata-se de um conto moral sobre a impossibilidade de sobrevivência sem laços sociais e afetivos, mas a real intenção de Danny Boyle é clara nessa sequência de abertura: vemos pessoas e delas desembocamos no espaço urbano. Daí às marcas McDonalds, Burger King, Taco Bell, KFC, é um pulo. Na esfera imagética, são os luminosos dos fast-foods que ficam para trás quando Aaron parte para a aventura; não os pais, irmãos e namorada. Ele abandona a família, mas, sobretudo, um sistema, e para Boyle, isso sim é condenável.
A história que interessa ao diretor é, portanto, a de um homem que sente falta de sua bebida energética, da água encanada, das facilidades do dia-a-dia, ainda que James Franco tente “boicotá-lo” não intencionalmente. Pois para Franco, Aaron Ralston tem sua redenção na família e isso está na força da interpretação e dos monólogos em frente à câmera. Os flashbacks – recurso que salva Quem Quer Ser um Milionário? da completa imoralidade, justamente por, em sua incompetência, romper com transparência fílmica – aqui de nada adiantam: se há verdade em 127 Horas, ela está calcada no ator, não na mise en scène ou na montagem, publicitárias ao extremo (não seria absurdo se o personagem sacasse um Gatorade na cena da piscina, fazendo um típico comercial da bebida).
Por fim, algo recorrente na carreira de Danny Boyle: a obsessão por figuras que vão ao inferno – ou mergulham na merda (literalmente, no caso de Trainspotting e Quem Quer Ser um Milionário?) - antes de se reerguerem. Trata-se do grande controlador, que faz de seus personagens meros títeres a sua disposição, e ao final, dissimula certo carinho por esses “bonecos” ao propor o happy end através da superação. Antes disso, porém, a violência para com tais personagens já sofreu forte espetacularização, aqui, traduzida na câmera dentro do braço a ser amputado, perfurando músculos, cutucando o osso. Claro, também resultado direto desse “dever” de colocar a câmera em todos os lugares, de fragmentar o filme a ponto de prejudicar a única coisa que aqui vale a pena: a capacidade de entrega do ator.
*ps: quem quiser ver um bom filme de Danny Boyle, procure Sunshine – Alerta Solar.
por ÁLVARO ANDRÉ ZEINI CRUZ
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
UM LUGAR QUALQUER


É o encontro com outra figura solitária que desperta o personagem – e o filme –
dessa pasmaceira emocional. Em determinada cena, Cléo (Ellen Fanning), filha de Johnny, pratica patinação no gelo. Coppola filma o ato de maneira nada especial: detém o olhar da câmera por longos momentos, tal como fizera com as streapers outrora. Mas há o corte para a reação do pai, e em seguida nova persistência na dança daquela personagem, que é livre, inocente, e por vezes, bela. A permanência do plano, que antes parecia mero tédio ou abstração para com aquilo que se via, agora encontra algo ao qual vale à pena prestar atenção, e isso é raro num mundo insonso como aquele.
Não que este mundo superficial irá se modificar, isso não acontece. Mas o feliz encontro entre pai e filha, figuras travadas a ponto de necessitarem de elementos externos (as canções do videogame e do violeiro) para conseguirem alguma expressão sentimental, faz com que um submundo se crie, algo que se traduz imageticamente no zoom out a beira da piscina: o plano começa fechado no momento de veraneio daquela dupla, que já naquele ponto, está fortemente conectada. A abertura, no entanto, revela um ambiente externo, que não interage com os dois personagens, imersos num isolamento conjunto que, para eles já é o suficiente. Ambos criaram uma bolha naquele mundo de plástico alicerçado em imagens frias e cenas-esquetes (seria a incapacidade de uma articulação da vida?). Naquela redoma há algum sentimento, mas há, sobretudo, uma razão, um objetivo, e isso basta para que haja algum estímulo, um espasmo de vida.
IMAGENS DA VIOLÊNCIA EM "O PEQUENO SOLDADO"

No entanto, antes de adentrar essa temática (a violência presente na imagem cinematográfica) no filme de Godard, é interessante lembrar a polêmica em torno de Kapo, filme dirigido pelo italiano Gillo Pontecorvo, veementemente atacado por Jaques Rivette, crítico da Cahiers du Cinema, revista da qual Godard fazia parte, pela construção dada à cena que traz a morte de uma personagem. Rivette descreve tal cena com grande irritação em seu famoso artigo intitulado “Da Abjeção”:
"Vejam então, em Kapo, o plano em que (Emanuelle) Riva se suicida, jogando-se no arame farpado eletrificado; o homem que decide, nesse momento, fazer um travelling para frente para reenquadrar o cadáver em contra-plongée, tomando o cuidado de inscrever exatamente a mão levantada num ângulo de seu enquadramento final, esse homem só tem direito ao mais profundo desprezo". (Cahiers du Cinéma, n° 120)
A abjeção destacada por Rivette, e retomada anos mais tarde por Serge Daney no texto “O travelling de Kapo”, está na abordagem dada por Pontecorvo à violência presente na imagem, e numa esfera maior, à forma como o tema político é tratado. Para Rivette, Pontecorvo submete à trama política às normas dramatúrgicas do Cinema ilusionista, gerando assim uma espetacularização da imagem, e consequentemente, da violência. Insere-se uma camada extra de dramatização numa imagem que deveria ser dramática por si só. O próprio Godard pontua: “o travelling é uma questão de moral”.
A abordagem dada por Godard às imagens de tortura vistas em O Pequeno Soldado é completamente oposta: não há espaço para qualquer tentativa de ilusionismo. A câmera próxima (afinal estamos no espaço do banheiro de um apartamento), e o corte sublinhando o essencial da ação, corroboram na percepção da materialidade da imagem, mas em momento algum modificam a força de seu conteúdo, tentando algum tipo de espetacularização. A imagem é o que é, e a existência dela é importante como registro puro de uma situação real e cotidiana naquele tempo e espaço, ainda que aqui isso se dê no escopo da representação. É o que argumenta João Moreira Salles em seu texto “Imagens em conflito”, que, ainda que num contexto brasileiro, questiona justamente a falta de registros imagéticos da violência, ou de suas vítimas, na mídia, salvos os casos em que a violência é algo extraordinário. O extraordinário colocado no texto de Salles pode estar na esfera do real, mas não está muito distante da espetacularização de Kapo. Já em O Pequeno Soldado, a violência é representada de forma direta e justa ao ponto, tendo ainda a importância de retomar um contexto histórico: a representação dos dois lados do conflito Argelino.
Voltemos à trama. Assim que é capturado, o protagonista é levado a um pequeno apartamento, onde passa por um breve interrogatório. Como ocorrera durante todo o filme, os acontecimentos continuam a ser narrados de forma objetiva em voz over pelo próprio, a quem são apresentadas fotografias de antigos comparsas assassinados por se recusaram a cooperar. A partir daí, a violência surge de forma abrupta e explícita para o público: pouco antes de serem mostradas a Bruno, as fotos surgem em plano fechado na tela. Não se tem, portanto, o ponto de vista do personagem, mas sim a antecipação do que lhe será exposto, e sem qualquer preparo, pois a reação do personagem vem a posteriori, somos apresentados objetivamente aos rostos esfacelados das fotografias, algo que precede ao arremate dessa cena de abertura da sequência, feito por um dos algozes: “Espero que você seja corajoso. Isso será difícil”.
Na continuidade à sequência, o personagem é então arrastado a um banheiro, e desde já, sua narração em primeira pessoa alerta: “A tortura é monótona e difícil. É difícil falar dela, assim, apenas a mencionarei”. A voz over, parte pertencente ao discurso sonoro, estabelece assim desde o princípio uma forma concisa, direta, e porque não dizer, desdramatizada de narrar a violência ao qual o protagonista será submetido, já que seu texto aparece sem a presença de inflexões ou motivações. O restante do discurso sonoro assume um posicionamento semelhante, já que se propõe a uma construção realista em que o único elemento estranho é a música, que surge em momentos pontuais.
O discurso imagético também será calcado no realismo: não há qualquer tipo de fetichização ou estilização da violência nas imagens. No entanto, o “simples” conteúdo delas contrapõem de forma contundente a contenção quase desdramatizada presente na banda sonora e na atuação do ator, relativamente contida diante das situações apresentadas (o próprio personagem explica através da voz over que se obriga a não gritar).
A truculência das torturas mantêm-se, portanto, delimitada ao conteúdo imagético, que por sua vez, apóia-se num realismo calcado numa planificação simples, que se utiliza da flexibilidade da câmera na mão para evitar sucessivos cortes (e a cena em que queimam o prisioneiro é, de certa forma, uma exceção), algo que é bastante frequente também nos momentos de diálogo, mantendo-se assim o foco na ação do quadro. A montagem, por sua vez, utiliza o corte como elemento de dupla função: síntese e sublinhamento. Enquanto tem as mãos expostas ao fogo, vemos o rosto do protagonista em primeiro plano, ao passo que o texto é dado pelo narrador em primeira pessoa. O corte ocorre e nos leva ao mesmo personagem desmaiado horas mais tarde, sendo que, assim que a nova cena inicia, ele é imediatamente despertado por uma ducha de água fria. Suprime-se através do corte a apresentação e qualquer possibilidade de suspensão das cenas: quando cada qual se inicia, já estamos muito próximos de presenciar a violência usada contra o personagem, tendo-se assim retratos concisos e episódicos, mas que mantém grande força e verdade através de seus conteúdos.
Essa breve, porém intensa e polêmica sequência de violência em O Pequeno Soldado, sintetiza inúmeras características da Nouvelle Vague francesa, a começar por essa busca delimitadora por aquilo que é vital à cada sequência, cena e plano, e por fim, ao filme, criando uma estética da economia, da síntese e da essencialidade. Assim, os costumeiros planos e contra-planos usados em diálogos dão lugar ao uso de panorâmicas e chicotes que buscam os personagens, fazendo também uma exploração do espaço cênico; a câmera surge exacerbando sua própria existência, inclusive pela quebra da quarta parede, bem como a montagem, que deixa de ser invisível através dos jump cuts (ainda que esse recurso seja usado aqui de maneira mais moderada do que em Acossado), dos cortes em meio a movimentos desajeitados, das quebras de eixo, da fragmentação e da repetição de planos. Os personagens, por sua vez, deixam a unidade psicológica e emocional do classicismo, para assumirem como principal característica a ambiguidade.
Tem-se assim um Cinema que busca na opacidade, no distanciamento, na denúncia de sua própria existência, sua característica vital. A impossibilidade de uma percepção ilusionista é uma obrigação ética e essencial para com as imagens. Afinal, o chacoalhar da câmera, a visível manipulação do tempo, nos lembram a todo instante de que aquilo é Cinema, e segundo Godard, nesse mesmo filme, Cinema nada mais é do que a verdade vinte e quatro vezes por segundo.
por ÁLVARO ANDRÉ ZEINI CRUZ
Bibliografia:
RIVETTE, Jaques. Da abjeção. Cahiers du Cinéma n° 120. Não paginado.
DANEY, Serge. O travelling de Capo.
SALLES, João Moreira. Imagens do real. O Cinema do real.
sábado, 22 de janeiro de 2011
MELHORES DE 2010
1. Toy Story 3, de Lee Unkrich
2. Vício Frenético, de Werner Herzog
3. Vincere, de Marco Bellochio
4. Ponyo, de Hayao Miyazaki
5. A Rede Social, de David Fincher
6. Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, de David Yates
7. À Prova de Morte, de Quentin Tarantino
8. Ilha do Medo, de Martin Scorsese
9. Tropa de Elite 2, de José Padilha
10. Mother, de John-Ho Bong
11. Invictus, de Clint Eastwood
12. Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright
13. Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow
14. Zumbilândia, de Ruben Fleischer
15. Direito de Amar, de Tom Ford
16. Brilho de uma Paixão, de Jane Campion
