

É neste primeiro momento, retratando os dias de Wall-e e Eva num mundo completamente devastado, que WALL-E ousa ser um filme de diálogos escassos. Num cenário onde os únicos personagens são robôs que se comunicam através de ruídos e meia-dúzia de palavras estilizadas, a imagem e a música tornam-se responsáveis por conduzir o discurso. A narrativa segue adiante utilizando a matéria-prima do cinema, abrindo mão de um recurso que tem sua inquestionável importância, mas que vem sendo enfraquecido por ser usado de maneira exaustiva e, muitas vezes, excessivamente didática. Afinal, o bom diálogo é aquele que leva a história adiante ou sublinha uma imagem, mas dificilmente é aquele que tenta substituí-la.
Da metade em diante, WALL-E muda não apenas de cenário, mas também de tom. As cores, até então amarronzadas, adquirem algum colorido e um ritmo mais intenso toma o lugar das cenas lentas e contemplativas vistas a princípio. Descobre-se então que a humanidade não fora extinta: encontra-se viva numa estação espacial, porém, latente, introduzida num mundo virtual que impossibilita qualquer tipo de relação humana real. Um segundo “apocalipse” é então revelado, não como uma reação climático-ecológica ou como uma herança da inconseqüência dos homens. O fim dos tempos de WALL-E transcende barreiras literais e retrata a “aniquilação” da espécie humana através do isolamento, do sedentarismo e da falta de comunicação.
WALL-E, por fim, dá continuidade ao patamar de qualidade e ousadia apresentado pela Pixar nos últimos anos. Em CARROS, o choque entre o urbano e o bucólico é representado através de um ritmo lento e tons melancólicos. Em RATATOUILLE, a obra-prima do estúdio, questionamentos sobre arte e crítica são levantados numa história aparentemente simples, mas com inúmeras camadas de interpretação. Em WALL-E, o primeiro recado é dado sem grandes rodeios, e fala de um mundo consumido pela poluição. O segundo, no entanto, é menos óbvio, e por isso mesmo, mais interessante: num universo de humanos adormecidos, o único relacionamento real é entre um casal de robôs. Um recado simples, que aqui dispensa palavras já que imagens são poderosas o bastante para transmiti-lo.
por ALVARO ANDRÉ ZEINI CRUZ