
Se há algo a se destacar no retorno da franquia INDIANA JONES quase vinte anos após seu término, é a extrema necessidade de reafirmar a vivacidade de Harrison Ford, hoje um ator sexagenário, como protagonista da série. Não por menos, já que as dúvidas quanto à anunciada retomada da franquia nunca foram poucas, e muito menos irrelevantes: será que Ford teria vigor físico para retomar o arqueólogo aventureiro que alavancara sua carreira há mais de duas décadas? E se caso a resposta fosse positiva, será que isso soaria verossímil ao grande público? Steven Spielberg e George Lucas apostaram que sim, e ainda bateram na tecla de que Ford continuava o mesmo mocinho de outrora. é, portanto, interessante notar que INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL traga o personagem-título com uma imagem dissociada daquela criada em torno de seu intérprete: embora não menos heróico, Indiana Jones surge aqui como uma figura consciente e conformada de que os anos passaram, e não raramente apresenta rabugice e melancolia típicas da idade.No entanto, é preciso deixar claro que tais características jamais empobrecem o personagem. Muito pelo contrário; Spielberg e Lucas estão repletos de razão em afirmar que Ford é a própria franquia, já que seu personagem continua sendo fascinante, e sua energia ao interpretá-lo não fica devendo em nada àquela vista nos episódios anteriores. Não à toa, o protagonista sobrepõe à presença do elenco secundário (com exceção de Cate Blanchett e Karen Allen, as presenças femininas do filme) e Shia LaBeouf, o novo queridinho da América, surge apenas como uma figura engraçadinha, mas ainda assim incapaz de ofuscar qualquer brilho do herói original.Com Harrison Ford a todo vapor, o grande problema desse quarto episódio acaba sendo a própria narrativa, que parece indecisa entre querer apenas homenagear a série clássica ou integrar-se definitivamente a ela. Assim, a primeira metade de O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL é visivelmente calculada para despertar certa nostalgia ao público, o que acaba criando uma artificialidade incômoda. Mas a aventura se redime da metade para frente, quando opta por mergulhar no universo fantástico e descomprometido que marcou a série.Contrariando a tendência realista inaugurada pela trilogia BOURNE, assim como os apetrechos tecnológicos de A LENDA DO TESOURO PERDIDO (que nada mais é do que um Indiana Jones sem charme) INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL pode não ter o mesmo brilho da trilogia clássica, mas apenas porque perde um tempo precioso tentando espelhar-se nela. Torna-se, porém, um filme suficientemente divertido quando deixa de formalidades e entrega-se aos prazeres do absurdo. Trata-se, assim, de um bem-vindo intervalo em meio a um cinema valorizador da verossimilhança e elimina a dúvida que não quis calar: para Indiana Jones, quanto mais passam os anos, melhor!
por ALVARO ANDRÉ ZEINI CRUZ